segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ESPECIAL | Crise acerta em cheio o setor de aviação civil brasileiro

Redução de oferta de voos e investimentos
Tatiana Lagôa



A demanda por viagens aéreas está caindo no País em função da crise econômica; baixa renda é mais afetada/Alisson J. Silva
Depois de anos seguidos de investimentos em ampliação de rotas para atender uma demanda crescente, o setor aéreo sente o baque da atual recessão econômica e inicia 2016 com uma única certeza: a de que irá retroceder neste exercício. Na prática, isso significa redução na oferta de voos, corte no nível de empregos e de inversões.

A nova realidade tende a elevar as tarifas e poderá fazer com que os aeroportos brasileiros voltem a atender, em sua maioria, pessoas de classes sociais mais altas. É a “reelitização” das viagens aéreas, movimento contrário ao vivido desde a ascensão de milhares de brasileiros para a classe C.

“A demanda por viagens aéreas está caindo no País em função da crise econômica. Mas é um fato que a população com renda mais baixa acaba sofrendo mais rapidamente. Até porque a inflação corrói o salário dessa camada da população mais fortemente”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens de Minas Gerais (Abav-MG), José Maurício de Miranda Gomes.

Como se não bastasse o maior impacto sobre o poder de consumo das classes C, D e E, é preciso lembrar que esse é um público mais sensível às oscilações de preço. Como fontes ligadas ao setor são unânimes quanto à tendência de encarecimento das tarifas em 2016, motivadas pela redução da oferta e elevação dos custos das companhias, o natural é que os altos preços sejam outro fator impeditivo para que essa camada da população mantenha presença nos aeroportos.

Essa mudança do perfil dos usuários do transporte aéreo é uma tendência iniciada agora que tende ao agravamento ao longo dos anos. “Na medida em que há o encarecimento das tarifas aeroportuárias, os viajantes tendem a substituir o meio de transporte utilizado nas viagens. E, caso a economia mantenha com resultados negativos, é certo que aumentará o desemprego e diminuirá a renda. Os dois fatos somados impactam sobre a demanda no setor de turismo como um todo”, afirma Gomes.

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Pesquisa - Dados divulgados pelo Ministério do Turismo, na pesquisa “Sondagem do Consumidor – Intenção de Viagem”, já revelaram uma propensão à queda no uso de aviões como meio de transporte pelos brasileiros. Apenas 38,8% dos viajantes disseram ter a intenção de utilizar o avião no primeiro semestre deste ano.

Em dezembro de 2014, o percentual de pessoas que vislumbravam voar nos próximos seis meses era maior, de 48,7%, e em 2013, de 53,2%. Já o número de pessoas que preferem utilizar o automóvel para pegar a estrada no semestre posterior à pesquisa passou de 35% em 2013 para 34,6% em 2014 e fechou em 38,8% em 2015.

A mesma pesquisa revela ainda que, nos primeiros seis meses de 2016, o percentual de pessoas com renda familiar abaixo de R$ 2,1 mil que vão viajar de avião deve ser de apenas 21,6%. Já dentre a população com renda acima de R$ 9,6 mil, 61% vão preferir chegar ao destino voando.

A demanda doméstica por transporte aéreo começou a retrair no ano passado, depois de acumular altas sucessivas. As quedas entre agosto e novembro foram de 0,6%, 0,8%, 5,7% e 7,9%, respectivamente, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). As baixas seguidas fizeram com que o nível de procura pelos voos no País recuassem a níveis iguais a 2013 até novembro, último dado divulgado pelo setor.

Até então, os resultados eram positivos. Para se ter uma ideia, em 2014, foram 95,1 milhões de passageiros transportados nos voos domésticos, o que equivalia a uma alta de 6,9% frente a 2013, ano em que a elevação já havia sido de 7,1% comparado com 2012.

E a justificativa para a mudança do cenário para o setor está na situação econômica do Brasil. “O transporte aéreo, assim como os demais, são muito dependentes da economia. Se não há produção, não tem o que transportar. Se a renda cai, as pessoas diminuem o número de viagens. É tudo diretamente proporcional”, afirma o professor de Economia do Transporte Aéreo na Universidade Anhembi Morumbi e consultor do setor, Adalberto Febeliano.
http://www.diariodocomercio.com.br/noticia.php?id=165403

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